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Infodemia e Infotoxicação

Atualizado: Jul 27


"Não estamos apenas lutando contra uma epidemia; estamos lutando contra uma infodemia” - frase do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, dita na Conferência de Segurança de Munique, em 15 de fevereiro de 2020.

A infodemia é um neologismo para uma superabundância de informações - algumas precisas e outras não - que dificultam as pessoas a encontrarem orientação e fontes confiáveis quando precisam. Infodêmico refere-se a um grande aumento no volume de informações associadas a um tópico específico e, cujo crescimento pode ocorrer exponencialmente em um curto período de tempo devido a um incidente particular, como a pandemia atual.

Entretanto, nosso cérebro não dá conta de tanta informação. Com sobrecarga, a relevância dos dados na memória pode se tornar confusa e prejudicar a tomada de decisões e a capacidade analítica. Isso porque a informação tem que ser metabolizada para se tornar conhecimento, requer discernimento para identificar o mundo real e o falso, e com esse excesso desenvolvemos, o que foi identificado pelo psicólogo britânico David Lewis como síndrome da fadiga informativa.

Nessa situação, desinformação e rumores aparecem em cena, juntamente com a manipulação de informações com intenção duvidosa. Na era da informação, esse fenômeno é amplificado pelas mídias sociais e outros meios de comunicação, espalhando-se cada vez mais rápido.

É fato que todo evento de grande impacto será acompanhado por um tipo de tsunami informacional, mas que também carrega desinformação, boatos, fake news, etc. Sabemos que mesmo na Idade Média havia esse tipo de fenômeno. Mas a diferença agora é que com a mídia social esse fenômeno é amplificado com velocidade de propagação como a do próprio vírus.

Segundo a OMS, a infodemia relacionada à COVID-19 é tão perigosa quanto a moléstia em si. A difusão de medidas preventivas infundadas, tratamentos e remédios falsos dificultam a luta contra a doença.

Da mesma forma, as teorias da conspiração acusando a China de “fabricar” o vírus, culpando as torres de células 5G por espalhar a doença ou acusando falsamente Bill Gates de fazer com que a epidemia nos venda uma vacina, podem ter consequências que vão além da saúde pública. Tais rumores, mitos e fatos exagerados alimentam novas formas de preconceitos e xenofobia on e off line.

Mas a infodemia vai muito além da pandemia do novo Corona Vírus. Infelizmente, o campo da política e da difamação têm se tornado cada vez mais propício para esse fenômeno. O que está em jogo é a rapidez para preencher o vazio informacional.

Entretanto nem sempre a informação de qualidade é rápida o bastante para ocupar esse vácuo, abrindo espaço para a proliferação de desinformação e fake news.

Na era do excesso de informação, credibilidade é um recurso escasso. Aproveito para citar o trecho de um artigo sobre tema correlato que já havia escrito, em outubro do ano passado: “vivemos um momento onde todos os assuntos são tratados, em especial, no ambiente digital, com visões extremadas. Aproveitando-se desse pano de fundo, ideologias, ativistas de causas, hackers digitais sociais, agentes políticos, prestadores de serviço inescrupulosos de empresas, e gente insana em geral, se utilizam dos social bots para disseminar mensagens de viés específico para desestabilizar reputações, corromper discursos e teses, enviesar conversas e discussões de grupos online, invadindo as redes e se infiltrando em meio a elas de forma viral e contagiosa”.

Permanecer crítico quando sobrecarregado por uma quantidade imensurável de informações de milhares de fontes é um grande desafio. Então vamos começar entendendo a diferença entre fake news e desinformação:

De acordo com manual "Iniciativa Global para a Excelência na Educação em Jornalismo", do Programa Internacional da UNESCO para o Desenvolvimento da Comunicação (IPDC), o termo 'notícias falsas' tem um significado direto ou comumente entendido. Isso ocorre porque 'notícias' significam informações verificáveis ​​de interesse público, e informações que não atendem a esses padrões não merecem o rótulo de notícias. Nesse sentido, então, “fake news” é um oximoro que se presta a minar a credibilidade das informações que realmente atendem ao limiar de veracidade e interesse público - ou seja, notícias reais ou real news.

São mentiras divulgadas como verdades e envolvem manipulação exploratória da linguagem e convenções de gêneros de notícias, dentro de formas cada vez mais diversas, inclusive em formatos de entretenimento como memes visuais. Os motivos para que sejam criadas notícias falsas são diversos. Em alguns casos, os autores criam manchetes absurdas com o claro objetivo de atrair acessos aos sites e, assim, faturar com a publicidade digital.

No entanto, além da finalidade puramente comercial, as fake news podem ser usadas apenas para criar boatos e reforçar um pensamento, por meio de mentiras e da disseminação de ódio. Assim, prejudicam pessoas comuns, celebridades, políticos e empresas.

Já desinformação é originada a partir de um jornalismo problemático e com processos frágeis. Inclui, por exemplo, erros contínuos (e não corrigidos) que surgem de pesquisas fracas ou verificações e checagens desleixadas. Inclui, ainda, o sensacionalismo que exagera no efeito. Esse jornalismo de baixa qualidade às vezes permite que a desinformação se origine ou vaze para o sistema real de notícias.


A desinformação é geralmente usada para se referir a tentativas deliberadas (muitas vezes orquestradas) de confundir ou manipular pessoas através da entrega de informação desonesta. Isso geralmente é combinado com estratégias de comunicação paralelas e cruzadas e um conjunto de outras táticas como invasão ou comprometimento de pessoas. É usada para se referir a informações enganosas criadas ou disseminadas com intenção maliciosa. A desinformação é particularmente perigosa porque é frequentemente organizada, com bons recursos e reforçada pela tecnologia automatizada.

Os geradores de desinformação atacam a vulnerabilidade dos destinatários que eles esperam engendrar como seus amplificadores e multiplicadores. Dessa forma, procuram animá-los a se tornar canal de suas mensagens, explorando suas propensões a compartilhar informações por vários motivos. Um perigo específico é o uso de “Old News” fora de contexto que acabam sendo difundidas como atuais, geralmente por pessoas sem acesso a jornalismo de qualidade ou a meios de comunicação independentes, sendo especialmente vulneráveis ​​à desinformação ou distorção da informação.

A disseminação de desinformação e fake news é possível em grande parte por meio de mídias e mensagens sociais, elevando as empresas e plataformas que prestam esses serviços a corresponsáveis. Esse tipo de comportamento fez com que os grandes do setor como Google, Facebook, Twitter começassem a agir fortemente no sentindo de tirar de circulação posts que contenham fake news e desinformação, verificando por exemplo, entre outras coisas, contas que são fontes confiáveis ​​de informações sobre a COVID-19 e monitorando as conversas para garantir que as palavras-chave pesquisadas sobre o vírus forneçam acesso a informações confiáveis.

Mas as redes e mídias sociais também estão buscando outras alternativas para ir nos livrando da desinformação e das fake news. Dois bons exemplos estão no Twitter:

  • BotSentinel: plataforma apartidária gratuita desenvolvida para classificar e rastrear contas não autênticas e confiáveis e trolls tóxicos. Foi lançada em 2018, com objetivo de ajudar a combater a desinformação e o assédio direcionado. A plataforma usa machine learning e inteligência artificial para classificar as contas do Twitter e, em seguida, adiciona as contas a um banco de dados disponível ao público que qualquer um pode navegar. Assim que o Social Bot é identificado e neutralizado.

  • ·Sleeping Giants: a conta original norte-americana se define como “um movimento para tornar o fanatismo e o sexismo menos lucrativos”, já o perfil adaptado ao contexto político brasileiro pretende “impedir que sites preconceituosos ou de fake news monetizem através da publicidade”. A mídia programática proporciona aos anunciantes a compra de espaços publicitários de acordo com dados de usuários da internet, enquanto produtores de conteúdo recebem por visualizações e cliques em anúncios exibidos em suas páginas. O serviço é oferecido por plataformas como Facebook e Google, desenvolvedor do Adsense, um dos meios de publicidade mais populares do mercado. Entretanto nem sempre os anunciantes sabem onde seus anúncios serão colocados, inadvertidamente financiando páginas, sites ou perfis que extremistas ou de propagação de fake news, e que se antagonizam totalmente com o propósito e valores da marca anunciada. Assim o Sleeping Giants avisa as empresas e deixa a decisão a critério de cada marca.

Porém, nada disso vale, se nos mantivermos inertes. A inação de espectadores pode incentivar a proliferação de notícias falsas. Qualquer pessoa com acesso à Internet pode contribuir para a guerra contra as informações distorcidas e erradas.

Sempre podemos reduzir seu escopo.

Aqui estão cinco dicas para evitar a disseminação de desinformação e fake news:

  • Seja crítico quando olhar para as mídias sociais. O ideal é duvidar sempre e procurar informações em outros veículos, especialmente nos conhecidos da mídia clássica.

  • Não deixe informações falsas em suas redes digitais. Você pode pedir com jeitinho e educadamente à pessoa que a compartilhou para removê-la.

  • Reporte as informações falsas e distorcidas aos administradores da plataforma.

  • Em caso de dúvida, não compartilhe e reserve um tempo para verificar as informações compartilhadas. No Brasil, existem agências de fact-checking, especializadas em checar a veracidade de notícias suspeitas e de boatos.

Eliane El Badouy Cecchettini, Badu como é conhecida no mercado, é publicitária, professora e coordenadora da Pós-Graduação de Economia Criativa e professora na Pós-Graduação de Neuromarketing da Inova Business School. Seus mais de 30 anos de carreira foram construídos em grandes grupos de comunicação como Editora Abril, Folha de S.Paulo e Sony Enterteniment Television e agências de propaganda. Em sua trajetória profissional atendeu contas como Mc Donald’s, Tetra Pak, 3M, FIAT, CPFL, Souza Cruz, Unilever, Johnson & Johnson, Internacional Paper entre outras. É consultora sênior de Futuro, Tendências & Consumer Insights da Inova Consulting e pesquisadora do comportamento, mecanismos de atenção e do consumo de mídia do jovem contemporâneo.

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